07 julho 2016

# Gente do Bem: Em busca dos sonhos na Tailândia "Uma aventura"

Olá amores, com a volta da rubrica "GENTE DO BEM" tenho uma história emocionante, inspiradora, cativante e cheia de boas energias. Quero dar a conhecer ao mundo a história de Vanessa  Mariano, mais conhecida como Chininha. Mas vou deixar que ela própria se apresente e vos conte o que a levou a viver na Tailândia. Uma história de vida linda que chegou até as minhas mãos e que me deixou encantada e super motivada em querer lutar pelos os meus sonhos. Se você gosta de histórias emocionantes leia o texto abaixo até o fim e fique fascinado como eu fiquei! 
Obrigada Vanessa por dividir comigo a sua história e por permitir que eu partilhe com o mundo!



Olá Francini,
Antes de lhe situar no ponto da história do porquê de estar aqui na Tailândia e, o que vim pra cá fazer, acho que seria importante entender um pouco o meu background.


O meu nome é Vanessa Maria Ruangpiyakul Mariano, tenho 26 anos e tenho tripla nacionalidade – Macaense, Portuguesa e Tailândesa. Sim, tripla porque nasci em Macau no ano de 1989  e, Macau ainda se tratava duma colónia portuguesa, logo tenho essa naturalidade; Portuguesa porque o meu pai é Português (do Alentejo, Ourique – Grandaços); e a minha mãe é Tailândesa (de Bangkok). Tenho um irmão com 28 anos, por isso existe mais um igual a mim ☺ mas ele ainda reside em Portugal, Sines.
Em Agosto de 1998 mudei-me de Macau para Portugal porque o meu pai não estava muito confiante quanto à entrega política de Macau novamente para a China.
A cidade onde vivi grande parte da minha infância (desde os 9 anos de idade), foi em Sines. A minha vida académica até ao 12º ano foi em Sines e, só depois, tirei a minha licenciatura, em Informação e Animação Turística, na UAlg (Universidade do Algarve), no pólo de Portimão – durante 3 anos.
Mais tarde já formada, voltei para Sines e num (des)encontro de emprego na minha área, não fui bem sucedida, não por falta de procura mas, também não por falta de oferta (o que penso hoje), apenas falta de informação, tanto pela minha procura como também gerida e oferecida pelo nosso país. No entanto, havia uma oferta de emprego, no valor do ordenado mínimo, pela Junta de Freguesia de Sines  como, «Assistente Educativa numa Unidade de Multideficiência na Escola Básica Vasco da Gama de Sines». Foi uma experiência que mudou a minha vida. Tinha de ser positiva, proactiva, flexível, animadora, professora e aprendiz. Fiz parte desta excelente equipa durante um ano e meio.
E agora, se calhar, perguntaria o porquê de eu estar só um ano e meio se já tinha um emprego, se estava estável e acima de tudo vivia na minha cidade (que eu amo).
Bem, por dois motivos. Um deles a nível profissional e outro a nível emocional. Profissionalmente porque não me sentia realizada, não pela falta de felicidade mas pela sensação que eu conseguia e precisava de fazer mais do que apoiar uma unidade apenas em Sines, apoiar antes unidades ainda com mais dificuldades noutros pontos do mundo. E porque é que fui logo pensar  “do mundo” e não simplesmente do nosso país? Porque, aí entra o meu segundo motivo: a razão emocional. Como disse a pouco, a minha mãe é Tailândesa. Durante toda a sua vida, viveu fora do país dela e, houve um momento na vida da minha mãe que ela decidiu que queria voltar para a Ásia para viver perto dos irmãos dela e finalmente, recomeçar do 0 e desfrutar do seu país (porque quem não gosta de se sentir mesmo mesmo mesmo em casa?). Então ela decidiu mudar-se para a Tailândia mas, o meu pai não quis ir; mutuamente decidiram que um ficaria e o outro iria (enfim, acho que passado 30 anos juntos, eles melhor que ninguém sabem o que querem e sentem fazer; eu nunca os questionei com esta decisão, apenas respeitei e amo os dois). Isto aconteceu durante a fase em que eu ainda estava a tirar a minha licenciatura. Resumidamente, era muito difícil para mim ir visitar a minha mãe porque o dinheiro que o meu pai ajudava mais o que eu ganhava no verão como nadadora salvadora pela A.N.S.L.A RESGATE (Associação de Nadadores Salvadores do Litoral Alentejano) e alguns part-time aos fins-de-semana durante o ano escolar, era focado somente para os meus estudos. Fiquei 4 anos sem ver a minha mãe. Essa foi basicamente a força maior que me vez pensar “no mundo”. Eu não tinha nada a perder, simplesmente, a pessoa que mais amamos na vida será sempre a nossa mãe. Então decidi juntar o que precisava para o bilhete só de ida para a ir visitar. Eu nem sei bem qual era a minha intenção a nível profissional mas gostava de continuar a experiência de trabalhar em escolas ou unidades ou instituíções com fins académicos. Durante 4 anos a minha mãe conseguiu arranjar um emprego (e ainda trabalha lá como general manager) num resort no nordeste da Tailândia situado em Nong Bua Rawe (que fica no meio nada) e, foi aí que fui parar, em Novembro de 2012, depois de uma viagem de 22 horas de Lisboa a Bangkok mais 7 horas de autocarro de Bangkok para a cidade onde a minha mãe estava. Parti de Portugal muito triste, pelos amigos, pelos familiares (do pai) e no fundo pela minha vida que estava a deixar no país, sim porque apesar de eu ser “half Thai” não siginifica que esteja habituada à cultura Tailândesa (porque nunca vivi lá), e é mesmo muito diferente do que nós estamos habituados mas, poder voltar a ganhar aquela força depois de abraçar novamente a minha mãe, a minha inspiração, foi mesmo “lifechanging”. Apesar de estar perdida, estava ao mesmo tempo a  reencontrar-me numa vila simples, pobre, que vive do cultivo de arroz e gado, nada existe à  volta se não o verde dos vales e o azul do reflexo do céu nos lagos que lá existem, para te distraír.



Mesmo em frente ao resort onde a minha mãe trabalha, existe uma escola, muito muito muito pobre; frequentada por 37 alunos desde o 1º ano ao 7º ano (incrível não é?); a escola tinha 2 professores e ambos ensinavam tudo e, eram também os cozinheiros desta escola; eles eram os pilares para que esta ainda continuasse aberta. Eu senti que poderia contribuir com pelo menos o que se procura muito na Tailândia: o ensino da língua inglesa. Então um dia fui lá à escola e na conversa com um dos professores (aquele que supostamente ensinava inglês, porque o outro não sabia) e, perguntei-lhe se poderia ser eu a pessoa que começasse a ensinar inglês ao miúdos, no fundo perguntei-lhe se me poderia receber como voluntária na sua escola; ele ficou tão contente que me pediu licença e deu-me um abraço (normalmente os Tailandeses não são muito do contacto físico, eles têm um gesto que se chama “wai” que consiste em juntar as palmas das mãos e colocá-las em frente à cana do nariz fazendo um movimento de olhar para o chão, como sinal de respeito). Comecei a ir à escola ensinar inglês aos miúdos todos os dias tipo 1 hora ou 2 horas e sentia-me tão feliz. Eles tinham tão pouco mas ofereciam-me os “snacks” deles, alguns items pessoais que eles queriam que eu guardasse, tipo uma pulseira DIY (do it yourself) feita com elásticos haha lindos mesmo.






Bem, durante 4 meses foi o que eu fiz, até que um dia, apareceu uma cliente no resort, uma senhora já praí com 60 e poucos anos e, numa conversa com a minha mãe no lobby, ficou-se a saber que a senhora tinha sido professora antes de se ter reformado, numa universidade na zona de Chonburi, na cidade de Bangsaen (sudeste da Tailândia, 1hora e meia a sul de Bangkok). A minha mãe sabia que eu estava a amar a experiência de trabalhar em escolas então decidiu pôr-me a conversar com esta senhora. Foi como um click. Tinha de acontecer. Houve um momento da conversa que a senhora me perguntou se eu queria, em vez de continuar a fazer voluntariado, trabalhar mesmo como professora numa escola na cidade onde ela vivia, porque ela tinha conhecimento de uma escola (English Program) que iria começar a recrutar professores estrangeiros brevemente. Fiquei tão perdidamente contente que o meu sorriso me denunciou. Um mês depois enfrentei mais um desafio: entrevista de trabalho! Foi uma conversa fluente sobre a minha experiência profissional  e um pouco sobre a minha vida pessoal, tive a oportunidade de fazer a entrevista em inglês e em tailândes, ao mesmo tempo, pois era importante para a recruta saber falar as duas línguas fluentemente. A directora da escola queria que eu começasse já haha mas, as condições e tudo resto não me permitiam realizar-lhe esse convite, então a directora da escola deu-me cerca de 3 meses para me preparar (porque tinha que fazer mudanças, alugar um dorm na cidade onde iria trabalhar, planear as aulas, enfim, esses detalhes que para mim são muito importantes para me fazer sentir confiante). E, três meses depois, lá estava eu na cidade de Bangsaen, uma cidade de pescatória, com uma praia local, uma universidade (considerável) e, algum turismo local, pronta para esta nova etapa que se seguia. Fui contratada para ser a professora de Educação Física (Physical Education) e Educação para a Saúde (Health Education) na ala primária (1º ao 6º ano de escolaridade) na escola «Satit International Program de Burapha University». Que experiência fantástica! A directora da escola era sempre muito flexível com os meus planos escolares para os miúdos; com isto também quero dizer que estes miúdos vivem numa zona de praia (tal e qual como Sines, a minha cidade em Portugal), mas eles tão pouco sabem nadar ou até mesmo algo acerca de segurança e prevenção aquática; como nadadora salvadora para mim isto foi um choque! Fiz umas investigações sobre o assunto “Suporte Básico de Vida” em escolas na Tailândia,  mas não existe nenhuma escola no país que tivesse este como parte integral do plano de ensino então decidi por em prática na nossa escola. Depois de um ou dois meses a pesquisar consegui organizar um plano de Segurança e Prevenção em meio aquático e terrestre, que consistia em ensinar 2 horas semanais de natação – incluída no horário escolar de todos os alunos da ala primária (1º ao 6º ano de escolaridade) – e, durante as aulas de “Health” tinha um plano de ensinar o Suporte Básico de Vida adaptado para crianças para melhorar a segurança tanto na escola como na vida futura destes miúdos.



Na piscina era tudo importante, desde controlar a respiração (making bubbles), flutuar (floating skills), mergulhar (diving and bubbles), saber nadar algumas técnicas (mainly frog and freestyle) e acimda de tudo fazer jogos e brincar; eu aprendi que os miúdos aprendem com gosto quando nós jogamos sobre o assunto; por exemplo: largava alguns ímans no fundo da piscina e o jogo consistia em que as duas equipas teriam de trabalhar em equipa para apanhar todos os ímans que estavam no fundo da piscina ou até mesmo tipo o jogo do nadador salvador e da vítima (já com os miúdos do 5º e 6º ano). Este projecto durou 3 anos e, no final do 3º ano os miúdos que estavam a terminar o 6º ano de escolaridade sabiam já todos os passos do Suporte Básico de Vida e inclusive ensinavam a outros alunos numa feira anual que o agrupamente de escolas realizava. Entretanto mudou-se a direcção da escola e pronto, este novo quadro não achava que o “projecto” era importante para uma melhor aprendizagem dos miúdos, então decidiram que era mais importante aprender desportos sólidos tipo basketball, volleyball, golf, football, etc...; fiquei muito triste, mas lutei pelo “projecto” até ao fim; a única autorização que me foi dada foi que somente os alunos do 1º ano teriam aulas de natação e, pronto existem sempre estas coisas. Esta quebra fez-me pensar muito sobre se, realmente o meu trabalho estava a ser valorizado pelo agrupamento de escolas e pelo novo quadro (não pelos pais, porque eles adoram estas iniciativas “estrangeiras e diferentes”).
Trabalhei nesta escola 3 anos (de Abril de 2013 a Março de 2016). Não achei que queria continuar a trabalhar e a suar por aquele agrupamente de escolas, não pelos miúdos porque eles são tão mas tão especiais (ainda hoje os visito), mas sim porque para além do “projecto” não ter tido continuidade, nem houve sequer uma ponderação ou votos sobre o assunto; foi simplesmente retirado. Ao mesmo tempo, pelo trabalho que tenho feito, recebi um convite duma escola privada também na cidade de Bangsaen; trata-se de um infantário de ensino internacional. É uma escola nova, estamos a celebrar o 2º mês de existência desta escola e tem sido um sucesso. A escola tem piscina de água salgada aquecida, um jardim, uma horta, um estúdio de dança e yoga, sala de artes e musica e outras pequenas grandes coisas importantes na aprendizagem de uma criança. Claro que faço parte deste projecto desde raíz, e estou muito contente com a visão desta escola porque o mais importante aqui não é saber logo ler, mas sim primeiro saber lidar com o dia a dia e estar pronto para situações menos favoráveis que eles possam vir a encontrar. Jogos, artes, simulacros (incêndio ou caso de desmaio de um adulto o que fazer), música (instrumentos), yoga, natação e baby swimming, dança entre outras actividades como artes marciais e tratarem da sua horta são as coisas que prezamos neste novo projecto.
Recebo alguns couchsurfers aqui em casa. É demais! Conhecer e conhecer mais pessoas enriquece tanto a nossa vivência em “zonas fora do nosso conforto” e claro que desde que vim pra cá tenho sempre amigos de Portugal a visitarem-me ☺ 


Desde que vim para cá, tenho seguido uma prática (que já fazia parte mas que por estar longe nunca consegui praticar) que se chama “Sak Yant Tattoo”, que são as conhecidas Tatuagens Espirituais Tailândesas.
Tem sido uma aventura, tenho andado tão ocupada, e já faz 2 anos que não vou a Sines mas, penso que era muito bom conseguir arranjar um espaço no final do ano para visitar a familia e os amigos.
Faço parte também dum trabalho paralelo sem fundos lucrativos (non-profit project) que consiste em apoiar as escolas locais fazendo voluntariado, doando roupa e brinquedos e ensinar jogos, musicas, e até mesmo algum vocabulário em inglês para com crianças carências ou orfãs.
As coisas que mais tenho saudades do nosso país são as ondas, o surf, os amigos, o meu irmão, o meu sobrinho, o meu pai, a comida, o cheiro, a língua hahaha verdade!; Tenho muitas saudades da música, dos festivais, de participar em mais concertos e espalhar o hip-hop feminino (Chininha é o meu nome artístico)...enfim coisas tão simples que não importa onde vá, eu vou sempre sentir falta! 


"Whether one is rich or poor, educated or illiterate, religious or nonbelieving, man or woman, black or white, or brown, we are all the same. We all experience pain when we suffer loss and joy when we achieve what we seek. On this fundamental level, religion, ethnicity, culture and language makes no difference."
- Dalai Lama


E pronto, muito resumidamente este tem vindo a ser o meu percursso pelas terras da minha mãe, Francini, mas se me perguntar onde me vejo amanhã, eu também não lhe sei responder. 

crédito das fotos: Vanessa Mariano
Texto da carta: Vanessa Mariano
História de: Vanessa Mariano
Edição do post: Francini Soares
O texto foi mantido na sua forma original para não perder os detalhes e sua essência!